Mãe!


Mãe!
Mulher de todos os dias
Passando por todas as noites
Mãe!
Nada mais do que amor
O amor mais puro, o amor dos anjos
Mãe!
O que fazes tão longe de mim
Ou! O que faço longe de ti
Mãe!
(Me) Perdoe minha ausência
Longe de tua jurisprudência
Mãe!
Me envergonho em lhe falar
Sem poder te abraçar
Mãe!
Quem irá me proteger
Quando um tropeço suceder
Eu sei Mãe!
Que está na hora de me virar
Que não posso mais procurar seu olhar
pra me encobertar
Eu sei Mãe!
Que minha hora está chegando
Que o trem está passando
Mas Mãe!
Não vou lhe deixar na mão
Sob o olho de um furacão
Ou a fúria da devastação
Saiba Mãe!
Que estarei lá
Sempre que você precisar
E nossas mãos a se encontrar
Lhe mostrará Mãe!
Que o reflexo de toda a vida
Não foi em vão
E pelo menos! Mãe!
Se não vencermos o inimigo
Você terá um peito amigo
Guardando um coração
Mas um coração de… Mãe!
Mas ensinado por você! Mãe!
E aprendido pela vida, pelas ruas, avenidas
Não desviarei o meu caminho
Continuarei seguindo o trilho
Onde… Mãe!
Eu sei que você estará
Para sempre a me esperar
E Mãe!
Então terei a chance
De me redimir em frente a ti
E sem querer te iludir
Falarei…. Mãe!
E não diga não escutei
Eu te amei
Eu te amo
E para sempre te amarei…. Mãe!

Eduardo Paschoalini

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PAISAGEM DESBOTADA


Hoje o dia está menos brilhante do que era. Acordei me sentindo mais só, com um vazio no peito, de alguém que era presente e virou passado. Minha mente ainda tentando entender o que houve de errado e tentar esquecer, pelo menos por um tempo, tantas memórias gostosas que tinha vontade de puxar de volta. Apagar os sonhos por mim imaginados de uma vida juntos, ideia essa que provavelmente nem chegou a semear a mente dele. Mas não o culpo. Sentimento é espontâneo, não tem como culpar alguém por não estar apaixonado por você. O pior é isso. Não tem como culpar ninguém, nem eu mesma, nem ele, nem o mundo. Essa dor é só minha e não tem culpados. Simplesmente não era para ser o que você queria tanto que fosse. Fato é que a cor que ele adicionava na minha vida, com seu pincel de purpurina, desapareceu. E eu vou ter que lidar com a paisagem mais desbotada até conseguir eu mesma colori-la novamente.

B.B.

DE REPENTE 30, E AÍ?


E aí chegou a tão temida idade, quando começa a decadência da juventude. Pelo menos é o que dizem, porque a carapuça não está servindo não! Acabei de completar 30 anos e me sinto mais jovem do que nunca, mais livre, leve e solta! E com a vantagem de ter mais experiência, saber mais sobre mim mesma, ser mais confiante e autêntica do que quando eu ainda era uma adolescente. Ou seja, que idade linda!

Talvez para a indústria da beleza esse seja aquele momento em que tudo começa a cair (a bunda, o peito, o braço, a perna), mas, para mim, que priorizo a alma e não o corpo, creio que é uma idade linda! Obviamente que digo isso com base na minha experiência pessoal, até porque não posso falar de nada além disso. Digo o que sou, minha arte é meu reflexo, como acredito que toda arte seja o reflexo do artista.

Pois bem, vou tentar explicar por que essa idade representa bons fluidos na minha trajetória. Eu sempre me senti um pouco “peixe fora d’água”. Não gostava de me emperequetar quando adolescente, para a tristeza da minha mãe, sempre fui muito crítica com os valores da sociedade e as variadas formas de opressão e nunca me encaixei em nenhum grupo: era muito hippie para as patis e muito pati para as hippies, muito esquerda para a direita e muito direita para a esquerda. Fiz Direito, o antro dos conservadores, querendo ser poeta e por aí vai… Era uma pequena (tanto em tamanho quanto em dimensão social) revolucionária.  Ou seja, sempre me senti num “não lugar” (termo recentemente aprendido com uma professora de sociologia), sem me encaixar nas identidades existentes no meu meio.

Apesar de ser uma coisa que ocorria naturalmente, eu não me sentia em paz com isso. Às vezes, tinha raiva por as pessoas em determinado grupo serem tão parecidas e eu não me enquadrar, em outras me sentia inadequada por não compartilhar a mesma opinião de todo mundo ou ainda me perguntava por que era tão difícil para mim seguir o padrão. Enfim, no meio desse conflito existencial que percorreu toda a minha vida, eu não conseguia me aceitar.

Preocupava-me com o que as pessoas pensavam de mim, se elas me aceitariam se eu discordasse delas e era extremamente dependente da aprovação da família e amigos. Em outras palavras, a opinião das pessoas era o que mais me importava.

E essa dependência da aprovação do outro, que no fundo é uma carência de si mesmo, é tão difícil de ser quebrada. Dói tanto desapegar da muleta do outro e aprender a se sustentar nas próprias pernas, com suas alegrias e frustrações… Sim, pois esse processo é uma faca de dois gumes. Por um lado, liberta-se da necessidade da aprovação de alguém, por outro se perde a admiração e o reconhecimento dos outros.

Para mim, que sempre fui a numero 1 da sala, a menina “perfeita” da família, a que cumpria todas as expectativas, quebrar esse castelo de areia foi como arrancar a própria pele. Mas sobrevivi.

Arrancando um a um os pensamentos limitantes que me foram impostos, tive de destruir a expectativa de todos à minha volta para descobrir quem eu realmente queria ser.  Comecei a me perguntar: Quais eram os meus reais desejos? Com o que queria trabalhar? Com quem queria me relacionar? E ao responder cada uma das perguntas que eu formulava, fui amando cada vez mais a mulher autêntica que estava me tornando. E precisava cada vez menos do amor condicionante dos outros. Quero amor se for livre, se for pleno.

Descobri-me feminista nos quase 30, reconhecendo na sua pauta de reivindicações muitas das coisas que a menina de 15 já pleiteava: o direito de não fazer unha toda semana, de não querer alisar o cabelo, de se vestir fora da moda. O direito de mandar no próprio corpo e na própria aparência, de se relacionar se quiser e com quem quiser. Havia outras como eu, espalhadas por todo o mundo, sentindo-se oprimidas pelos mesmos fatos!

Comecei a me sentir cada vez melhor com os meus cabelos cacheados lançados ao vento, inspirando a liberdade de ser quem eu sou. Nada mais, nada menos.

Além disso, chegados os 30, ainda não cumpri com nenhuma obrigação exigida pela sociedade para mulheres da minha idade: não me casei (nem namorando estou), não tenho uma profissão estabelecida (na verdade, acabei de mudar de profissão) e continuo não me enquadrando em nenhum grupo. Mas estou tão bem com isso! Sem raiva, sem carência, sem sofrimento. Simplesmente me amo como sou, com minhas qualidades e defeitos.

Sim, demoraram praticamente 30 anos para eu conseguir me soltar das principais amarras que me aprisionavam. Há muitas outras, essa é uma luta de uma vida inteira ou mais, mas hoje celebro a possibilidade de me sentir mais livre.

Então, viva os 30! Viva o eterno aprendizado que se chama vida! E viva o autoconhecimento que nos faz mais livres, plenos e felizes!

B.B.

 

POBRE AMY


O documentário “Amy” relata a vida nada glamorosa da cantora inglesa Amy Winehouse. Antes de assisti-lo eu já sabia que ela era uma cantora muito autêntica com voz excepcional e dependente de drogas e álcool. Porém, ao assistir ao filme, me dei conta da fragilidade e tristeza que envolviam aquela mulher.
Enxerguei na cantora exótica, um ser humano inseguro, que tentava desesperadamente fugir de tudo e principalmente de si mesma. Amy não conseguia suportar as pressões e as dores da vida. Sim, pois a vida glamorosa que inspira milhões no mundo todo era insuportável para ela. Amy chegou a declarar que trocaria sua voz tão invejada pela possibilidade de andar nas ruas sem ser fotografada e reconhecida. Que mundo cruel esse da Amy.
Mas ela não estava sozinha nessa dura caminhada chamada vida. Estamos todos inseridos nessa grande guerra, lutando diariamente contra os demônios externos e internos que fazemos de tudo para esquecer.
Ao ver o filme descobri também outro triste fato: Amy tinha bulimia desde a adolescência e foi esse o principal fator de sua morte. A cantora, ainda jovem, encontrou um jeito de resolver uma equação aparentemente insolucionável (comer o que queria, sem engordar): vomitava tudo o que comia. Assim, atendia aos anseios da indústria da beleza que desde muito cedo aprendeu a obedecer. E assim, definhava a cada dia.
Amy se habituou a fugir dos problemas, expelindo-os para fora de seu corpo, como fazia com a comida. Essa menina que de repente se viu ganhando milhões, conhecida no mundo inteiro, e que começou a ser alvo da cobiça desmedida da indústria e da obsessão de fãs e jornalistas. Todo mundo queria um pedaço de Amy. Justo ela que quase não conseguia se sustentar em cima de suas pernas esqueléticas.
Porém, admiro Amy pela imensa coragem em expor seus sentimentos mais dolorosos em suas músicas. A arte, quando realmente vem de dentro, traz consigo sangue, lágrimas e carne. É como se uma parte do corpo do artista fosse arrancada e mostrada para o mundo. Mas às vezes essa parte é a mais tenebrosa. Imagino como era para ela cantar “Back do Black” (De Volta para a Escuridão) após ter saído do sofrimento causado pela separação com seu namorado. Será que ao cantar essa música ela era levada a retornar para o fundo do poço?
Pobre Amy. Uma cena que me chocou muito foi a que mostra o dia em que ganhou 5 prêmios no Grammy de 2008 e disse para sua amiga que nada daquilo tinha graça sem usar drogas. Triste Amy, imersa no vazio de sua alma, lutando desesperadamente por algo que a fizesse sair de si.
A história dessa cantora que marcou uma geração nos faz refletir sobre a nossa pequenez e fragilidade diante do peso da vida. Porém, não existe outra saída senão encará-la. Creio que Amy continua lutando contra os seus demônios em outra dimensão, pois os obstáculos persistem até serem de fato encarados e vencidos. Tomara que tenha mais sucesso do que na sua rápida e intensa passagem pela Terra.
B.B.

A arte de conhecer a si mesmo


Para muitas teorias filosóficas e religiosas, a nossa grande missão é conhecer a si mesmo. À primeira vista tal missão parece simples, afinal todos parecem se conhecer tão bem! Porém, na verdade, conhecer a si mesmo é um caminho árduo e interminável. Somos tantos “eus” em um só que a missão nunca está completa. Além disso, nos modificamos o tempo inteiro, sendo necessário atualizar esse conhecimento a todo momento.

Não bastasse isso, vivemos numa sociedade doente que pretende enquadrar seus membros em um padrão único de comportamento, de aparência e de valores. Assim que nascemos já somos imersos a expectativas dos familiares que pensam saber o que é melhor para nós. À medida que crescemos somos cobrados a representar vários papéis sociais que vão nos podando e reprimindo nossos verdadeiros desejos. Para sermos aceitos socialmente, temos que vestir a roupa da moda, ter o cabelo igual, gostar das mesmas músicas e ter os mesmos interesses que os outros integrantes do grupo. A homogeneização é quase que obrigatória para nos sentirmos bem nos lugares que frequentamos.

No meio dessa enxurrada de influências de todas as partes, crescemos sem fazer as perguntas essenciais para alcançarmos a nossa missão: Quem sou eu? O que eu realmente gosto? O que eu quero para a minha vida?

E quanto mais nos moldamos para agradar os outros, mais distantes de nós mesmos ficamos e mais medo temos de nos conhecer. Afinal, ao se conhecer corre-se o risco de descobrir algo que não vai agradar a família, os amigos, a sociedade. E se isso acontecer? Será que as pessoas vão gostar de mim mesmo assim?

O medo é alimentado pela carência. Isso porque quanto mais distantes estamos de nós mesmos, mais carentes somos e mais dependentes estamos da atenção e carinho alheios. E mais medo sentimos de perdermos a aceitação dos outros. E mais queremos agradar os outros e nos escondermos de nós mesmos. E assim se forma o ciclo que é alimentado diariamente por todos nós.

Porém, nunca se falou tanto em autoconhecimento. Filósofos, religiosos, sociólogos e pessoas comuns como eu e você têm escrito muito sobre a importância e a arte de se conhecer. Talvez porque as pessoas tenham chegado a um nível de infelicidade insuportável que as fizeram querer rasgar as vestes dos personagens e ver o que tem dentro. Este, no fim das contas, é o único caminho para a paz interior e para a felicidade real. Um caminho penoso, sem aplausos e solitário, mas um caminho que vale a pena percorrer.

B.B.

Questionando a vontade de escrever…


Eis que estou no meu quarto, um pouco entediada e com uma asia daquelas e começo a escrever. Talvez a minha vontade de escrever tenha surgido do imenso desejo de fazer algo de produtivo. Porque eu, assim como tantas pessoas nesse Brasil afora, estou desempregada e estou precisando canalizar essa energia para algum lugar. Quer dizer, não que escrever seja produtivo, no sentido de uma utilidade eminentemente materialista, mas certamente resulta num produto que é o texto, que pode ser totalmente inútil, digno de ser jogado no lixo, ou pode ser inspirador ou reflexivo ou questionador, ao menos para aquele que escreve. Neste caso, certamente a escrita servirá para algo digno de nota, digno de alguns minutos na vida do escritor ou do leitor.

Analisando mais profundamente a minha vontade de escrever nesse momento, acho que ela advém também da minha necessidade de manter a fé na vida e no futuro. Sim, porque eu realmente gosto de inspirar os outros a acreditarem em dias melhores, mas para isso eu preciso acreditar, certo? Então, nessa vontade de sair do meu desânimo momentâneo (causado por uma combinação de desemprego, asia e um pouquinho de solidão), comecei então a escrever! E realmente parece estar dando certo, porque ao escrever começo a me lembrar de que no fundo eu acredito que tudo vai dar certo.

Se Deus quiser amanhã, a minha asia vai ter passado, o emprego pode demorar mais um pouquinho, mas um dia vai aparecer e a solidão, acho que essa eu preciso aprender a lidar melhor com ela. Talvez quando a minha vida ganhar novamente mais movimento e as coisas forem se encaixando, eu nem a perceba mais… Porque solidão é algo ilusório e ao mesmo tempo real quando não conseguimos nos encontrar. Acredito que podemos nos sentir sós, mesmo estando com o marido ou numa roda de amigos e podemos nos sentir plenamente completos sem mais ninguém, desde que nos sintamos bem e plenos conosco mesmo. Papo cabeça esse né?

Enfim, o importante, como dizia Gonzaguinha, é não perder a “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”. Mesmo que haja mais notícias ruins do que boas, mesmo que aparentemente haja mais motivos para chorar do que para sorrir, a fé é o que faz a gente acordar no outro dia com um sorriso no rosto, querendo ver o sol da janela e acreditando que a vida nos presenteará com algo bom até o anoitecer. E num é que ela sempre nos presenteia?

B.B.

A Singela Beleza da Vida


Há muito tempo não escrevo, talvez por falta de tempo ou por falta de inspiração… Costumava encontrar inspiração quando estava triste ou com raiva de alguma coisa. Não que isso fosse um processo consciente, mas, analisando bem, creio que encontrava na escrita uma forma de extravasar alguns sentimentos negativos, como se fosse uma terapia. E até que funcionava.

Agora que esses sentimentos não são mais predominantes no meu espírito, apesar de volta e meia os encontrar no meu caminho, veio-me uma inspiração de escrever sobre a singela beleza da vida… Sim, porque apesar de muitos dizerem o contrário, a vida é bonita, mas nem todo mundo é capaz de enxergá-la assim.

Vejamos algumas provas diárias, que passam despercebidas para a grande maioria, que parece preferir sempre ver o lado ruim e feio das coisas.

Certa manhã, estava andando para o trabalho e vi um bebê observando maravilhado um lírio, que até então só havia chamado a sua atenção, apesar de milhares de pessoas terem passado por aquela mesma calçada, inclusive eu. Pensei na beleza daquela cena singela de 2 seres puros se entreolhando: o bebê com sua inocência, descobrindo um mundo novo que se abria à sua frente e o lírio, com seu perfume encantado e sua perfeição indescritível. Senti-me privilegiada por poder ver aquela cena tão única!

Em outro dia, tinha ido à minha aula de dança, como usual, e reparei na alegria de uma colega que, nos seus 50 anos de idade, nunca conseguia ir para o lado certo do passo na coreografia, mas, mesmo assim, amava dançar! Toda vez que eu a olhava, ela sorria para mim e fazia um gingado só dela, sempre despreocupada se estava fazendo certo ou não. Quanta autenticidade e desprendimento! Maravilhei-me!

Para citar mais um exemplo, estava eu na Argentina, saindo de uma sorveteria, quando uma menina que andava pelas ruas vendendo cristais, ofereceu-me para compra-los. Eu disse que não queria e continuei andando. Foi então que ela pôs um cristal branco na minha mão e me disse que era presente (“pressente” no seu portunhol). Eu fiquei sem reação na hora e falei, então, que queria pagar pelo cristal, perguntando quanto custava. E ela continuou dizendo que era presente, recusando-se a receber o dinheiro. Essa cena comoveu-me muito, ainda mais pelo fato de que só eu, no grupo de 6 pessoas com quem eu estava, gostava de cristais. Pensei em quão misteriosa é a vida e como ainda há gestos espontâneos e desinteressados de pessoas que menos esperamos.

Assim como nesses pequenos exemplos, a vida está cheia de momentos únicos que merecem ser deliciados, mas que, se não observados com atenção, parecem inexistentes. Que tal começarmos a reparar mais neles?

B.B.

Papai Mamãe


— Cadê o menino?
— Saiu pra matar mendigo.
— De novo?
— De novo.
— Você não acha que isso está indo longe demais?
— Bem…
— Bem o quê?
— Ora, você…
— Eu?
— Sim, você.
— Que que eu tenho com isso?
— Você incentivou ele.
— Incentivei coisa nenhuma. Só dei minha opinião.
— Que é…
— Que esses mendigos são uns párias. Por mim, mandava matar todos eles.
— E isso não é incentivo?
— Isso é opinião.
— Filho não sabe diferenciar uma coisa da outra. O seu tomou sua opinião como ordem. Está lá obedecendo ao papai.
— Até agora quantos?
— E eu lá fico contando!
— Hoje vou conversar com ele. Vou dizer que está bem assim.
— Você acha mesmo?
— Não, não acho.
— Então deixa o menino fazer o serviço.
— Fico preocupado. Se a polícia pega, vai dar trabalho pra livrar a cara dele e a minha.
— Ele sabe fazer direito. Vi uma vez.
— Verdade, você foi logo no início. Ele engatinhava nisso.
— Mas já era bom. Ele tem precisão e sabe se esgueirar sem deixar vestígios.
— Um menino desses…
— … enche a gente de orgulho.
— …
— Você está chorando?
— Os filhos crescem tão depressa.

 

Alexandre Brandão
[1] Título provisório. Escrito em 2013, com o assassinato de índios por jovens e ricos adolescentes do Distrito Federal em mente. E era só um início.

SORTIMENTO


“À guisa de registro , conto que o ano que passou parecia “coisado”. Foram tantas as intempéries. Astrólogos falaram do encontro conflitante de Saturno e Urânio. Os deuses andaram loucos e sacudiram até as rochas. Lembro, a tempo que Freud me proibira terminantemente de recorrer aos astros e apresentou o inolvidável caminho do inconsciente: esse “lá” mencionado em verso de Florbela Espanca …” saudade, sei lá de quê”.

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!” Florbela Espanca .

Contudo, de maneira generosa, nosso Sig-mund nos permitiu também beber na fonte dos poetas. Só nos restou obedecer, consentir!

Pisamos nos arames farpados do trabalho árduo na lida com esses seres humanos. Esbarramos em Encontros de toda ordem: aveludados, vulcânicos, que renderam borboletas no estômago e um ou outro estrago passível de procedimentos cirúrgicos nos divãs de por aí…

Alguns acontecimentos foram ferozes e não obstante encontramos rastros da delicadeza quase perdida, que foi devidamente reciclada para amenizar dias cinzentos.

À despeito de tantos abalos sísmicos, fomos também visitados pela quase plenitude, pelo conforto dos bons Encontros, dos rituais cercados de afeto nas adjacências.

Poesia pulou no nosso colo, inadvertidamente. Percorremos outras geografias, debulhamos atos falhos, e claro: brindamos, celebramos com gratidão a vida com sua largueza de mistério, enigma e insondável déjà vu.
Esparramamos nosso charme diante das placas de “Entrada Franca”.

Soubemos na carne, na fratura exposta que a Palavra lavra e nos coloca a trabalhar. “Publicados, registrados e intimados”, sig-amos … mundo afora

Escreveremos na pauta do ano que se inicia, nossos Desejos, coragem, fé, alegrias desmedidas, leveza, docilidade, Amor e todo sortimento de ofertas que saberemos receber.

Palavras que meu coração ditou.”

Neide Heliodória

LIÇÕES DO ANO QUE PASSOU


“Nesse ano que passou, aprendi muitas valiosas lições.
Aprendi que é importante se resguardar. Que ninguém precisa saber tudo da minha vida, nem mesmo meu melhor amigo ou meu namorado; que é preciso deixar o silêncio entrar para a verdade sobre nós mesmos sair. Aprendi a diminuir o barulho e aquietar a mente. A guardar um pouco mais as palavras para quem queira ouvi-las.
Aprendi que só eu posso entender a minha própria dor e que não adianta tentar explica-la, até porque só eu mesma posso senti-la. Aprendi também que depois que a dor cicatriza, ficamos mais fortes e mais maduros e os frutos realmente começam a nascer.
Aprendi que as palavras bonitas podem não significar nada se proferidas por quem não sente o seu significado, mas podem significar muito quando refletem o que há dentro da alma. Aprendi que o coração é realmente melhor conselheiro do que a razão ou o ouvido ou os olhos. Que se comparar com os outros não vale a pena e nem se ver pelos olhos dos outros, mas que tomar a rédea da própria vida é uma decisão difícil e de muita responsabilidade, pois a culpa por eventual fracasso passa a ser inteiramente sua.
Aprendi a respeitar o meu ritmo, o meu momento, o meu espaço e a parar de querer agradar os outros. O maior presente que eu posso dar ao mundo é ser eu mesma. Aprendi que criticar os outros é muito mais fácil do que criticar a si mesmo, porque neste caso podemos mudar e isso requer coragem e responsabilidade.
Aprendi a respeitar a criança ingênua que mora dentro de mim e a ver nascer a mulher ainda insegura que estava escondida. Aprendi a dar tempo ao tempo, a saber a hora de afastar e de me aproximar, de falar e de escutar.
Por fim, aprendi que vale a pena correr o risco de sofrer se for para tentar ser feliz. Afinal, na vida não há garantias.
Que venha o novo ano, com mais lições a serem aprendidas e reaprendidas, com sorrisos ou lágrimas. Porque viver realmente vale a pena!”

B.B