— Cadê o menino?
— Saiu pra matar mendigo.
— De novo?
— De novo.
— Você não acha que isso está indo longe demais?
— Bem…
— Bem o quê?
— Ora, você…
— Eu?
— Sim, você.
— Que que eu tenho com isso?
— Você incentivou ele.
— Incentivei coisa nenhuma. Só dei minha opinião.
— Que é…
— Que esses mendigos são uns párias. Por mim, mandava matar todos eles.
— E isso não é incentivo?
— Isso é opinião.
— Filho não sabe diferenciar uma coisa da outra. O seu tomou sua opinião como ordem. Está lá obedecendo ao papai.
— Até agora quantos?
— E eu lá fico contando!
— Hoje vou conversar com ele. Vou dizer que está bem assim.
— Você acha mesmo?
— Não, não acho.
— Então deixa o menino fazer o serviço.
— Fico preocupado. Se a polícia pega, vai dar trabalho pra livrar a cara dele e a minha.
— Ele sabe fazer direito. Vi uma vez.
— Verdade, você foi logo no início. Ele engatinhava nisso.
— Mas já era bom. Ele tem precisão e sabe se esgueirar sem deixar vestígios.
— Um menino desses…
— … enche a gente de orgulho.
— …
— Você está chorando?
— Os filhos crescem tão depressa.

 

Alexandre Brandão
[1] Título provisório. Escrito em 2013, com o assassinato de índios por jovens e ricos adolescentes do Distrito Federal em mente. E era só um início.

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