A DOENÇA DO PRECONCEITO


O dia 20 de novembro é o dia da consciência negra. Nesse dia, vale a pena lembrarmos a luta da raça negra pela liberdade e igualdade no Brasil. Que sintamos uma dor no peito ao pensar que um dia os negros já foram tratados como objeto, como escravos. E que essa dolorida história sirva para nos ensinar o quanto o racismo pode ser perigoso e irracional.

Por outro lado, nesse dia também vale homenagear essa raça criativa e festeira. Essa raça que é a responsável por muitas das manifestações culturais que viraram orgulho nacional, como o samba e a capoeira, e que mostra as diversas faces do seu talento ilimitado pelo país afora.

Mas, antes de tudo, que essa data sirva para nos lembrar de uma coisa óbvia, mas ao mesmo tempo tão difícil de ser realmente aprendida: que somos todos iguais. Iguais nos direitos, iguais nos deveres, iguais como seres humanos que somos. E que a capa com que cada alma se mostra nesse planeta é somente uma capa e nada mais.

Que esse dia sirva para nos conscientizar do absurdo que é qualquer tipo de preconceito, seja por causa de raça, de posição social, de bagagem cultura, de religião, de aparência física. Esses preconceitos que nascem ninguém sabe de onde e nem porquê e que embaçam a nossa visão quando olhamos para outro ser humano. Porque impedem que enxerguemos o outro como ele realmente é, livre dos nossos pré-julgamentos obscuros e sem sentido.

Então, que o dia da consciência negra nos inspire a valorizar essa cultura que tanto nos prestigia com sua música, dança, movimento e energia e que nos faça refletir sobre quantas pessoas deixamos de realmente conhecer e enxergar por causa dessa doença, chamada preconceito.

B.B.

Fotografia: a eternização de um olhar


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FAROESTE CABOCLO E OS MENSALEIROS


“Por vezes é estranho assistir a um filme fruto de adaptação de uma obra literária que já tenhamos lido previamente. A concretude do cinema esbarra na nossa imaginação, e nos sentimos esbulhados naquilo que compusemos para estórias e personagens. Foi assim comigo ao assistir meses atrás Faroeste Caboclo no cinema, adaptado a partir da minha música favorita e que me acompanha desde os tempos do primário…

Hoje tive a oportunidade de assisti-lo pela segunda vez, num momento emblemático para a história do Brasil, que coincide com a prisão dos mensaleiros, fato que muitos duvidavam quando as denúncias passaram a estampar as capas dos jornais anos atrás.

Este fato me ajudou a compreender a beleza do roteiro, que enaltece a estória de amor entre um preto, pobre, imigrante vindo da Bahia com uma menina branca e rica de Brasília, filha de um Senador da República, e o fim trágico dado a essa tentativa.

Quando Renato Russo escrevera a epopéia de João de Santo Cristo o Brasil era o país onde somente os ricos e brancos tinham vez… Não iam pra cadeia, usavam do poder político e econômico para se manterem as margens da lei, esta implacável para os mais fracos.

Tanto é assim que, por mais que Maria Lúcia e João se amassem, seu destino trágico já estava estabelecido. A ironia do destino é que o Brasil precisou de um negro de origem humilde para ter a coragem de finalmente tentar mudar essa história de injustiça.

Espero profundamente que o Mensalão não seja um caso isolado, e que a partir de agora o Brasil seja um país em que brancos e negros, ricos e pobres passem a pagar pelos seus atos.
Vida longa ao Legião, que a indignação de suas letras continuem a inspirar meninos que, como eu, um dia poderão influenciar os rumos desse país.”

Bruno Araújo
Advogado, Procurador do Município de São Paulo e Estudante de História na USP

NA CORDA BAMBA


 

Carolina se sentia como se estivesse andando numa corda bamba e, a todo momento, tivesse que buscar o equilíbrio tão difícil de ser mantido. Como se fosse um objetivo eterno e um exercício diário que demandasse atenção, observação e muito cuidado. Os seus dois abismos eram a euforia e a depressão, duas faces da mesma moeda: o desequilíbrio. Já tinha estado nos 2 abismos e sabia exatamente como eram esses estados emocionais ao mesmo tempo opostos e idênticos.

 

Na euforia ela fugia da realidade e parecia ser a pessoa mais feliz do mundo, sempre rindo, sempre falando, sempre correndo. Mas na verdade tinha que se movimentar tanto para não enxergar a realidade com a qual não conseguia lidar. De encontros superficiais, surgiam paixões súbitas e platônicas. Homens vazios transformavam-se em possíveis namorados completos e amorosos, aos seus olhos. Nessas épocas, o mundo parecia um grande playground , com diversão garantida, mas irreal. Era só Carolina parar um pouco e voltar a se ouvir que logo via que aquela alegria fugaz era na verdade uma fuga dos seus próprios problemas.

 

O outro abismo infelizmente também era um velho e temido conhecido de Carolina. Quando caía nele, ela não conseguia ver as cores da vida, tudo parecia preto e branco, nublado, sem graça, sem esperança. Nada fazia sentido em sua vida e somente a tristeza e o desânimo pareciam reais. Mas esse estado também não era real, porque não conseguia ver as coisas como elas são, sem o pesado semblante da melancolia.

 

Mas finalmente Carolina estava aprendendo a andar na corda bamba sem cair. Dia após dia, ela lutava “contra” ou “a favor” de si mesma para conseguir manter o equilíbrio. Para enxergar a realidade (mais sem graça do que nos momentos de euforia, mas mais real) e para conseguir lidar com seus sentimentos e seus desafios de uma forma mais serena. E às vezes pensava que tivesse mesmo que conhecer um pouco do “céu” e do “inferno” para saber que a vida não é nenhum dos dois, que a vida é uma série de momentos que merecem ser vividos com intensidade, presença e muito amor.

B.B.

 

MUITO PRAZER, VOCÊ!


Confesso, tenho ojeriza a auto-avaliações ou qualquer tipo de dissertação que tenha como tema “eu mesmo”.

A antipatia vem desde os tempos de colégio e intensificou-se na vida adulta ao sempre me deparar com esse tipo de pergunta em avaliações psicológicas e entrevistas de emprego.

Creio que a dificuldade é geral. Daí ser tão comum nos depararmos com clichês como “minha principal característica é a facilidade de trabalhar em equipe, minha adaptabilidade, bom humor, empreendedorismo, dinamismo”, e por aí vai…

A maior dificuldade está no fato de que sempre queremos passar a melhor imagem de quem somos, ocultando nossas fraquezas e exaltando qualidades consideradas positivas por determinado grupo social. Em tempos de Facebook verificamos diariamente o quanto isso é verdade…

Recentemente fui convidado a testar a relação entre os números da minha data de nascimento e minhas características pessoais – uma descrição de como sou de acordo com a numerologia.

Confesso: se tivesse “grana” envolvida no negócio pararia de imediato. Nunca tive muita paciência com ciganos ou qualquer outro ser com poderes paranormais que exercesse sua divindade a troco de dinheiro…

Mas a situação era completamente diferente. Não havia nenhum interesse em jogo e encarei a novidade pensando que seria, no mínimo, divertido.

O resultado? Surpreendente!

Como todo ser humano, adorei ouvir minhas qualidades. Quanto a elas, me reconheci de imediato.

Com relação àquelas características que não são positivas, como toda pessoa, tive várias. Minha primeira reação foi de resistência para, após, começar a identificar o modo com que cada “defeito”, cada “mania” me faz ser a pessoa que sou.

Portanto, que tal dedicar um tempo a se conhecer? Admire suas qualidades e tente corrigir alguns defeitos que lhe incomodam. Aprenda a se ouvir e a se respeitar…

Tenho certeza que você irá se sentir bem mais confiante após ver a beleza da pessoa que existe dentro de ti.

“Nunca existiu uma pessoa como você antes, não existe ninguém neste mundo como você agora e nem nunca existirá. Veja só o respeito que a vida tem por você.
Você é uma obra de arte — impossível de repetir,
incomparável, absolutamente única.” (OSHO)

J.

MIXIDO INDICA


FLORES RARAS picFlores raras é um filme tão delicado e belo como uma flor. Versa sobre o amor. Mas não um amor glorioso com um final feliz como os retratados nas comédias românticas norte-americanas. Fala sobre um amor real, intenso e doído. Um amor capaz de trazer inspiração e felicidade e, ao mesmo tempo, dor e desgraça. Um sentimento que une e separa, constrói e destrói, que dá vida e deixa morrer. Um amor paradoxal, como é a vida, em que as coisas não são só boas ou só ruins. Em que tudo depende da dose e da forma como é degustado.

O filme relata a história de 2 mulheres, uma brasileira e a outra norte-americana, que se apaixonam. Mas o fato de serem 2 mulheres é um mero detalhe. A história sai do clichê do preconceito contra homossexuais e simplesmente conta com naturalidade uma história entre 2 pessoas que se amam.

Flores raras toca fundo na alma e merece ser prestigiado não por ser um filme brasileiro, não por contar uma história de lésbicas e nem por se desvencilhar dos clichês cinematográficos. Ele merece ser visto por retratar com uma simplicidade e delicadeza raras uma história de amor real e comovente.

B.B.

SILVIA E SUAS REFLEXÕES


Apesar de inúmeros conselhos, Silvia insistia em ser uma pessoa multifacetada. Maquiada… mascarada… irradiando altivez e alegria na frente de todos. E infeliz junto aos lençóis.

Alguns amigos continuavam dizendo que ela não teria motivos para ser triste. Como se esta bela constatação fosse mesmo ajudar… Já outros (diga-se de passagem, a maioria) tentavam sempre levantar o seu astral, mostrando-lhe o quanto ela era forte e como tal capaz de transformar sentimentos e momentos ruins em caminhos para uma nova trajetória. Esta seria a grande sacada.

Mas se para o bem viver realmente existisse fórmula, as coisas seriam mais fáceis para todos nós.

A verdade é que às vezes temos que viver as nossas próprias experiências para saber o que fazer com a tristeza que nos aflige.

Silvia esforçava-se em ver o lado bom das coisas e entender que a felicidade plena era algo praticamente intangível. Mas era como se ela precisasse passar por aquilo: uma necessidade para sua evolução pessoal.

Forte, continuava enfrentando a barra de seu casamento infeliz e o estereótipo de mulher bonita, inteligente e alegre que todos, mesmo que inconscientemente, exigiam dela.

Dia após dia somatizava suas frustrações.

Aí um dia o corpo falou mais alto que a sensatez e ela se rendeu a uma enfermidade surreal que a levou a dias de internação hospitalar. Como isto poderia estar acontecendo? Logo ela que se preocupava tanto com o corpo e, além de fazer exercícios físicos periódicos, mantinha uma alimentação saudável e fazia check up sistematicamente?

Mas seu corpo berrou, fazendo com que ela enfrentasse uma brusca freada. Afinal, ela precisava parar de somatizar tantas angústias… Uma chance que a vida estava dando para Silvia, pois o seu estado psicológico tendia a piorar.

Sabe?! Todos temos que saber a hora de parar. Parar de lamentar (mesmo que não tenhamos o costume de reclamar da vida) e tomar uma decisão. Ou várias.

Se o casamento é infeliz, o que pode ser feito para torná-lo feliz? Queremos realmente permanecer casados? Essa é a profissão que desejamos continuar exercendo? Quais são os nossos sonhos? O que devemos fazer para torná-los realidade?

Silvia aproveitou aquele difícil momento e o transformou num grande universo de reflexão.

E ao final daqueles dias de internação, respirou aliviada, porque tomou uma única decisão: a de que várias questões precisavam ser respondidas. Ela tinha que ir atrás das respostas, pois nelas estavam a chave para que se materializassem os seus sonhos.

A nossa heroína passou a ter sonhos e a desejá-los intensamente. Não almejava mais a felicidade plena, mas sonhava com os pés no chão, pois havia tomado consciência de que desejos realizados levariam, mesmo que momentaneamente, a estados de plena felicidade.

Mas não se iludam! Este não é um final feliz, pois toda decisão tem suas consequências. Agora, Silvia terá que ser mais forte do que nunca para colocar em prática tudo o que delineou para sua vida. O primeiro passo ela já deu. E agora? Será que ela vai conseguir escrever sua nova história?

Afinal, como diz Carlos Trigueiro em Libido aos Pedaços, “pessoas de bem preferem a hipocrisia ao escândalo”.

Raquel Guimarães

Para todos os amores errados


Para todos os amores errados: título de uma das obras de Clarissa Corrêa. Um livro de crônicas que tinha tudo para ser leve… Mas não é. Definitivamente não é.

Será realmente que dá para ter leveza ao falar de Amores Errados? Penso que sim. Nós é que colocamos “peso” nas coisas. Deixamos os fatos mais sombrios do que verdadeiramente são. Dramatizamos.

Para falar de amor… E desamor… O que vale mesmo é a reflexão. E que fique claro: isso não é uma autoanálise. Não… Apenas uma reflexão. Uma crítica numa crônica!

Conversar sobre… Ver todos os lados da moeda. Ao refletirmos sobre a “arte” de errar no amor (porque é uma arte, vocês não acham?), será que estaríamos mais perto da fórmula mágica para encontrar o Amor Verdadeiro?

O que eu sei é que às vezes a vontade de errar é tão grande que acabamos nos sabotando. Quem disse que queremos realmente encontrar o Amor “Certo”? Será que estamos mesmos dispostos a acertar no Amor?

Acertar o Amor. Acertar no Amor. É difícil! Exige dedicação, abnegação e por vezes anulação… Ou seria autoanulação??? E, na minha opinião, nada é pior do que perder a Identidade. Autossabotagem sim, mas perda de identidade nunca!

E quando o assunto é Amar, adoramos inventar. Criamos histórias… Estórias… E acreditamos nelas! Verdadeiramente. O que será que tem de REAL nisso tudo? Acho que nunca vamos ter certeza. Real? Verdadeiro? Certo? Errado? O importante é experimentar, vivenciar inúmeras sensações, viver de forma intensa e visceral.

Intensidade é a palavra. E quando erramos no Amor… Podemos, na verdade, é estar acertando com a gente… Uma busca eterna. Afinal, o que é certo e o que é errado?

Penso que estou no caminho certo. O caminho que escolhi para minha vida: uma trajetória de experiências…

E você? Quer acertar ou errar no Amor? E será mesmo que é esta a questão?

RAQUEL GUIMARÃES

Carta resposta


Recentemente fui apresentado à história de Sílvia, uma bela e bem sucedida mulher de trinta e seis anos que apesar de todo o sucesso profissional e da linda família constituída, sentia um enorme vazio, um sentimento de tristeza produzido por não ter encontrado a verdadeira felicidade, ou em outras palavras, a sua paz interior.

Minha pretensão não é (e nem poderia ser) apontar o caminho para Sílvia alcançar a “verdadeira felicidade” (se é que ela existe), pretendo apenas oferecer uma palavra de consolo, talvez fruto do fato de não resistir a uma mulher (ainda que fictícia) chorando…

Como cantou Vinícius de Moraes, “é melhor ser alegre do que ser triste; alegria é a melhor coisa que existe”.

De fato, é impossível não concordar com o grande compositor, mas, atualmente, assusta o crescente pensamento de que temos a obrigação de ser feliz o tempo todo e em todo lugar.

Dizia Nietzsche, que “o destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”.

No intuito de nos auxiliar na busca do equilíbrio, nos ensina o Tao:

 

Há um tempo para estar à frente, um tempo para estar atrás; um tempo para estar em movimento, um tempo para estar em repouso; um tempo para sermos fortes, um tempo para estar exaustos; um tempo para estar em segurança, um tempo para estar em perigo.

 

Por isso Sílvia, não se cobre demais. A maioria das coisas que acontecem a nossa volta está fora de nosso controle. Já nos dizia Chico Xavier que “tudo que é seu, encontrará uma maneira de chegar até você”.

Portanto, aprecie seu momento de tristeza, afinal, uma hora ele vai passar.

Mas como? É realmente possível apreciar algo como a tristeza?

Digo que sim. Como disse Rubem Alves

 

milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca para sempre.

Assim acontece com a gente.

As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.

Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito a vida inteira.

 

Portanto, veja o lado positivo da tristeza. Alguns artistas produziram suas melhores obras sob seu efeito. A tristeza deixa transparecer como nós somos, é capaz de nos despir de qualquer máscara ou ilusão. Aproveite a tristeza para conhecer um pouco mais de si mesma.

Afinal, como nos ensina o budismo, do mesmo jeito que as coisas podem ficar ruins de um momento para outro, as ruins também podem ficar boas rapidamente.

Para concluir e ilustrar um pouco do que foi dito, gostaria de mencionar um episódio narrado em um livro que sempre me vêm à cabeça quando me deparo com algum tipo de frustração.

 

O violinista israelita Itzhak Perlman se apresentava no Lincoln Center, em Nova York, quando, logo depois de começar a tocar, uma corda de seu violino arrebentou. O público imaginou que o concerto seria interrompido, pois trocar e afinar uma corda de violino não é tarefa fácil. Mas ele continuou tocando com as cordas restantes. É quase impossível executar uma partitura escrita para as quatro cordas do violino com apenas três, mas, para surpresa de todos, ele conseguiu.

Ao terminar o concerto, o músico foi ovacionado. Ele então enxugou o suor da testa, ergueu o arco do violino pedindo silêncio e disse: “Sabe de uma coisa? Às vezes a tarefa do artista é ver o que pode ser feito com o que lhe resta.”

 

Por isso minha cara Sílvia, que tal experimentar tocar este violino de três cordas?

Pratique o desapego; Conheça culturas diferentes; Altere sua rotina; Cometa uma pequena loucura de vez em quando.

Prepare uma deliciosa caipirinha com os limões que a vida lhe deu…

Afinal, Deus nunca disse que a jornada seria fácil, disse apenas que a chegada valeria a pena.

 

J.

Sílvia e o espelho


mulher e o espelhoSílvia tinha tudo. Aos 36 anos, ela era casada com um homem que a amava, tinha um emprego que lhe rendia um gordo salário, viajava para a Europa todo ano, tinha amigos que a admiravam e uma casa luxuosa. Durante toda a vida tinha seguido o manual de como alcançar a felicidade que todos à sua volta lhe ditavam. Estude muito, entre numa boa faculdade, faça Direito, Engenharia ou Medicina, case com alguém que te ame, seja magra, ganhe muito dinheiro, viaje muito e seja feliz! Bom, tinha cumprido com êxito todas as etapas, na idade certa, sem atrasos. Formou aos 24, deu uma bela festa de casamento aos 29, comprou sua casa aos 30 e conseguiu um importante cargo de gerência na empresa em que trabalhava aos 34. Seus amigos e familiares a admiravam por sua beleza e inteligência. O seu reflexo no espelho fascinava até ela mesmo, que ficava horas a fio admirando a bela vida que construiu.

Mas, à noite, quando apagava as luzes e se encontrava com o lençol, Sílvia sentia um vazio que não sabia explicar. Um vazio que vinha de dentro, do âmago do seu ser. E tudo que conseguia fazer era deixar as lágrimas rolarem diante da tristeza que apertava o seu peito. Era a única coisa que a aliviava. De repente, ela se encontrava com ela mesma e não tinha como fugir. Não tinha como fugir da triste realidade de que ela vivia a vida que todos queriam para ela, mas não a que ela queria para ela mesma. Não via sentido no seu trabalho, não amava o marido (tinha um carinho, sim, mas não o amava) e sabia que não tinha realmente se perguntado o que queria fazer de sua própria vida. Ninguém havia lhe ensinado a fazer tal pergunta. Ninguém queria realmente saber que caminho ela queria percorrer. Nem ela mesma. Talvez todos temessem que ela saísse do caminho seguro e se embrenhasse a desvendar percursos nunca antes explorados. 

E quando pensava nisso uma coisa a confortava: pelo menos não tinha ninguém apontando-lhe o dedo e dizendo “eu avisei que isso não ia dar certo”. Pelo contrário, era ela quem apontava o dedo para todo mundo, nos seus sonhos, e dizia: “por que vocês não me avisaram que isso podia não dar certo?”. 

Mas a sua tristeza era silenciosa, porque o mundo não permitia que ela a revelasse. Afinal, o que seriam de todos se descobrissem que não existe receita para a felicidade? Talvez eles se permitissem traçar o próprio caminho. De um jeito ou de outro, a sua tristeza não era permitida. Quando tentava contar para a sua irmã sobre a sua infelicidade, ela dizia: “você não tem motivo para ficar triste. Tem tudo o que todo mundo sonha. Para de bobagem”. 

E assim, dia após dia, Sílvia continuava a suportar a sua tristeza solitária que o mundo preferia não ver. E em alguns momentos chegava mesmo a acreditar que aquela imagem feliz que todos viam nela era real. Até chegar a hora de as luzes se apagarem e o breu esconder o seu próprio reflexo.
B.B.